Sexta-feira, Novembro 13, 2009

''O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.''


Falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia
"Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas"

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

CONVITE

Venho convidar -lhes para participarem de eventos literários realizados na Fundação Cultural à partir do dia 10 de novembro!

A abertura, nesta data, ocorrerá às 19:30h, e em especial, convido-lhes a participarem do lançamento do meu livro, "O Retrato da Nudez Eólica"; que será feito junto do lançamento de outros escritores.

Portanto, espero-lhes nesta data para comemorarmos a formosura das palavras em diversificação!

Conto com todos!


(Clique na imagem pra ampliar o cronograma completo
ou confira aqui:
http://www.fcblu.com.br/novosite/novo/noticias/index.php )

Sábado, Outubro 17, 2009

''(...) As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão.
Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. (...)"

(Clarice Lispector)

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

http://aujourdhuioui.blogspot.com/2009/09/metragem.html

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Plus belle

Neste dia 10 de setembro na Lagoa da Conceição em Florianópolis, tive a honra de abrir a exposição do artista Nestor Jr., na Galeria Cor.
Foi de uma lisonja sem tamanho, e tenho apenas a agradecer e celebrar; a beleza da arte em seus detalhes e continuidade, muito além desse fato, mas pra um recordar ainda mais vívido, assim que merecidamente tem seu espaço a contemplar.

Doar palavras para compactuar com a incomensurável intensidade entre as sinestesias que os traços provocam, marcam fundo nossos rastros, intervindo na vida, acima de tudo.



Compartilho registros com a impressão do magnífico no seu concebimento mais verdadeiro!















Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Considerações

É com imensa satisfação que hoje divulgo-lhes a publicação do trabalho de um amigo muito querido, divulgado como destaque num site de publicação de projeto de artistas amadores,
e que merecidamente, tem reconhecido em seu lugar que ainda tem muito para demonstrar!

''Binärezeichen
Produções de electro com irresistível perfume retrô da coldwave oitentista aliadas à poesia da era atômica''


Confiram mais sobre este, e apreciem as músicas disponíveis para áudio e download no mesmo:
http://www.fiberonline.com.br/artista.php?id=3494

Conto ainda, com a lisonja de conceber participação em duas das faixas, com colaboração de declamar a poesia Homo Infimus de Augusto dos Anjos (em "Homo Infimus Definitive"),
e em "Aquela Hora", letra de minha autoria, um dos textos de meu livro.

Não deixem de apreciar!

Com os devidos cumprimentos, só tenho a agradecer a honra e partilhar de um trabalho feito com dedicação e esforço que não se mede por qualidade de técnica, mas sim pelo amor ao que se faz. Amadorismo é somente o requinte da sofisticação do que fazes, e não duvida-se da tradução, de um grande artista!

Aproveitem!
http://www.myspace.com/binare

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Pétalas escritas ao chão, folhas emergindo corpos

_Hoje escrevo com a tua mão na minha, os traços de teu corpo sobrepondo os momentos que descrevo, como a linha fina que encobriu minhas pernas, e, desnudou minha pele de seus relevos.
A rouquidão da minha voz foi linha tênue pra convergir com teus suspiros, e o silêncio perfeito para marcar o ritmo da experimentação de nós.
_Os caminhos que já conheço e que são perfeitos para me desenhar. Os braços que se largam sob os teus e alargam as impressões, para intenções latentes que se respondem ao leito das línguas. Correnteza que nos usa como nova música aos ouvidos, que dança novelando a melodia do preferido no instante único que não se reprisa. Os poros se eriçam do corpo que se rende ao espetáculo de seu incrível desencarnar das obviedades, para florescer nos arrepios, o fantástico. Mãos seguram pedaços do céu em carne viva; gotículas provenientes de pura essência, raios na pele esticando a cor e a temperatura dos céus que vibram no atrito, e conjugam na fome a vontade de querer mais. Engole-se em instantes a inflamação do infinito no enlaçe de pernas frágeis, ao caminho inesquecível dos momentos palpáveis, intocáveis atemporalidades.
_A matéria prolixa que consiste a vitalícia não explica nada além do encaixe de bocas e mãos suavizados no derreter das camadas superficiais demais para decifrar o gosto. E então, degustar.
O brinde dos cálices expelindo vida grossa e latente, como vulcão. Teu cheiro entre meus seios caindo entre os dedos, se ajuntando na aproximação e nova queda que responde fundo a aprovação que se devora e condensa os ares arfando-se como própria vítima - os olhos que vêem em mistério. E já não ligam medo, se entregam.
_Se entremeiam na intensidade que não comporta seus movimentos, entre gritos e sussurros responde o magnífico sem mais, que não resista ao novo retoque da plenitude que se aguarda nesse tempo sem estação.

_Nesse tempo que a boca cega repete, que harpeja a vida nos seus desgastes, na harmonia de um sorriso que se esboça de olhos fechados, e hoje cai do céu refrescando a vida em sua extensão complexa, mas nunca impossível. E se for, é o que há - verdadeiramente, a cria entre nós.

_Hoje tenho todas as folhas ao meu dispôr, tirando fibras do meu corpo, alimentando-me do suor epitelial, do descanso dos passos que agora atingem o repouso inebriado no teu dorso.
E ludicamente, cai meu nome nos teus lábios. Já não vejo, mas me faz dormir; como pálida insistência pra eu acordar e mais um dia refletir no ato a pureza degustável, de simples existir.

♪ Spies ♪ Coldplay ♪