quinta-feira, abril 10, 2014

Fundo de tinteiro









Doce ironia essa do poeta
poder declarar-se louco
a partir do seu intelecto
pelos sentidos provido






Poder ousar-se público
a usar seu nó da garganta
em discurso, hino






Uivar uma onomatopeia
e dizer futuro
Compilar um cheiro
ao pertencer de vento






Evaporando flores,
brincando em contrastar as letras
frente ao nossos olhos

Como um espelho tatuado em livro



Me traduzindo até
numa preguiça amanhecida,
ao marulhar do ônibus






Jorrando no piche, uma condição:
é simples

segunda-feira, abril 07, 2014



O silêncio brinca
de apalpar os meus ouvidos
Ele continua a não-dizer, mas instiga os ecos
a romper a nuvem-casca




E me anunciar,
no tentador recurso
da verdade, da viagem
Que reproduz como um sonho




Ele diz que tenho
uma voz de trovão  a cortar o deserto
Mas hoje é a areia
que dissolve o gosto da explicação entre os dentes.






segunda-feira, março 17, 2014

O ser translúcido



O amor sobrevoa
a companhia,
os atos em tentativa,
a lascívia arreganhando os dentes

 as pernas bambas
que chamam a atenção
antes da direção

Se resvala no ar,
penetra num aceno,
no sabor, na vontade

de fazê-lo
antes de
sabê-lo

Por isso e com isso te alcanço
Amando até as pernas soltas
do tempo passado

Pela lembrança que valsa
a essência etérea
do teu riso que conspira
a minha paz em rosto e poesia

Assim como só o amor
é capaz de dedilhar
no que parece invisível
e se tem por incomensurável.

sábado, março 08, 2014

O verso ao universo


Invasiva,
a memória perscruta a mesa
cheia de sinestesias

Da curva que entronca histórias,
da cor que amalgama o mistério
A boca que assovia o desejo
confunde a razão

Mas não me arredio
em ser cíclico
Continuo o desafio,
e o caminho é desfile.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014




Eu não acreditaria,
mas foi na estadia d'um ponto de ônibus
às 8h de um dia útil
que eu senti



as saudades
da gentileza
saindo da fumaça
negra



Desmembrando a sujeira
que parece invisível à pele
enquanto intoxica aos olhos



Mas há ainda o que perdura
aos sulcos da calçada,
procurando a seiva abaixo da pedra,
buscando o pomar, a essência



À terra fértil pertencida
antes da fumaça
do homem
da hora
da fruta



Como voz intuitiva,
de dentro das engrenagens
quero o vento!

terça-feira, janeiro 28, 2014

Sonho urbano



Me incumbi de fazer
diária a minha escrita;
um exercício de percepção
de encantamento no meu dia


Porém há vezes
tão mal-ditas
que até as injustiças,
as burocracias fazem tropeçar
as ritmias da poesia


E quase fazem dela
uma bigorna,
a luz do dia esquecida


Deslava a aquarela da paisagem,
faz o bicho da desistência
zunir alto...


E o que resta é vontade
de chorar
em vez de rir


E eis que reluz
a irônica natureza:
da árdua travessia, chega uma novidade de carona
Que assopra o mordido e sorri:


"Aí mora tua funda poesia!
Masca o ar, transcende o tempo
que o destino tenta prever


E como quem carrega nos braços um filho,
e  de repente, das entrelinhas e rugas,
percebe que margeiam


a linha do tesouro
no mapa de mundo
de um olhar imaginado justo escondido...

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Receituário





Resolvi escrever um poema
que não tenha medo
de seus medos




Que vai fundo na palavra
como um incômodo revirando
o âmago em palavrão

Mas por vezes,
a tinta não impressiona
como a forma de mundo emoldura



E a percepção de pulso
vai se confundindo com
o emaranhado do tráfego





O divino entre caos
vai chegando em consolo
como avião de papel, persistindo





Nas entrelinhas que
abrem o horizonte
e fazem o crepúsculo
ser ouro solar





Cristalizando a hora que vai
para a hora que vem
À luz que dispersará o tempo
e aos olhos,





já serão porto
de novo.