segunda-feira, julho 14, 2014

O buquê dos sentires


Eu encontro versos
como quem tece teia e tinta
Das nuvens cinzas
à estrada florida

A medida do inspirar
surge como métrica do olhar
Se permite ao ver
e vê além do tocar

É como atinar a melodia
através do silêncio,
sentir o vento fertilizar
a terra e os próprios pés

Pela aventura de reinar
soprando versos anônimos (e de todos)
Que da métrica só as idas
e vindas permite preservar


segunda-feira, julho 07, 2014


Flutuo sob as águas
e o céu azul é
quem me mergulha

Ao compasso que move
marulhando,
condensando a calma
como sussurro

Desfila sob
a brisa da tarde,
à estria d'água
que decodifica

Um poema a
prova de caligrafia

Me engana e engole
seu azul celeste
- translúcido
e tinta

Que em si só
conta meu conto
Enquanto enxagua
meus olhos

E mesmo debaixo
d'água, me lavra
a boca de poesia.


sexta-feira, junho 13, 2014

Ao doce cravejar da memória


Bebe do vinho

o rubro
que também escorre
em meu sangue


Refinando sua própria doçura
como a linha tênue
das veias
e deste instante
Em que se canta a vida
pura nascente
dos lábios

Viva no corpo

ao efêmero de recordar
na matéria mecânica,
o sublime


Desmistificada e claramente,

vide a própria lua cheia em histórias
Tenra do prazer de seus mistérios
pulsantes.

segunda-feira, maio 12, 2014


Nasci de sentidos

voltados a emoção
Me comovo fácil - neste mundo
aonde até beleza pode urgir fácil


Os traços simétricos
de um rosto felino
As vivas cores
de flores despretensiosas

Falam uma canção
que nos presenteia
- vivendo o olhar
em surpresa

Transpasso o caminho
não só deixando pegadas
Mas escrevendo versos da poesia
que é andarilha

Ela harmoniza e agracia
em forma desse fruto em suspiro
Perfumes abrindo trilhas...

Se infiltra no vento,
brinca de orvalho,
me abana rabos caninos

E se alarga ao fim
sem precisar de rima,
quando assim sorri

sexta-feira, abril 25, 2014

''(...) antes que o outono comece nas coisas, ele começa em nós'' *



Caminhei sob a terra árida, desértica
Na superfície que de tão cálida,
até me provocava como ao frio extremo,
abismo sensível



Pensei tantas vezes,
dei voltas nas poças de areia
que acreditava canteiro

Até achei que compreendi,
mas mesmo no deserto
a brasa me sorria
Tão acesa, esfinge ardente

Usei o inexplicável para
traduzir linhas, me ensinar caminhos
Do qual meu corpo não pertence,
mas agora atinge

E toda vez que
impulsiono meu olhar,
minha atitude, meu silêncio

é movediça a terra que se oferece
e permite que a semente do afeto
Nos adube

E de encontro,
a pedra mais preciosa,
a flor mais rara

Como a ternura dada
ao sorrir e desabrochar
É a pura sinfonia d'uma tempestade
de nuvem cinza e gosto doce, doce


* Frase de Bernardo Soares

quinta-feira, abril 10, 2014

Fundo de tinteiro

Doce ironia essa do poeta
poder declarar-se louco
a partir do seu intelecto
pelos sentidos provido

Poder ousar-se público
a usar seu nó da garganta
em discurso, hino

Uivar uma onomatopeia
e dizer futuro
Compilar um cheiro
ao pertencer de vento

Evaporando flores,
brincando em contrastar as letras
frente ao nossos olhos
Como um espelho tatuado em livro

Me traduzindo até
numa preguiça amanhecida,
ao marulhar do ônibus

Jorrando no piche, uma condição:
é simples

segunda-feira, abril 07, 2014



O silêncio brinca
de apalpar os meus ouvidos
Ele continua a não-dizer, mas instiga os ecos
a romper a nuvem-casca




E me anunciar,
no tentador recurso
da verdade, da viagem
Que reproduz como um sonho




Ele diz que tenho
uma voz de trovão  a cortar o deserto
Mas hoje é a areia
que dissolve o gosto da explicação entre os dentes.